sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Alô Telenovelistas

Gosto da palavra telenovelistas, lembrando o português de Portugal. É mais real. Novela inicialmente era no papel, no livro ou no jornal, através do folhetim, depois vieram as radionovelas, na antiga Rádio Nacional do Rio de Janeiro e em seguidas as telenovelas, com a “máquina de fazer doido”, expressão do saudoso jornalista, escritor e humorista Sérgio Porto, também conhecido pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, autor, entre outros, do ontológico Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País. “Máquina de fazer doido” era a forma como Stanislaw designava a televisão.

O alô do título é para sugerir, dar uma dica, aos autores das novelas de TVs para uma possível próxima novela ou minissérie. O ano passado, em um programa de TV, falei que está havendo uma crise de criatividade nas telenovelas, os temas são muito repetitivos e assim o público vai cansando, por isso a audiência vem diminuindo. Não é só a questão da chegada do computador e da internet que vai tirando o público da frente da telinha. Respeitosamente falta criatividade.

Escrevo isso com toda respeito e reverência, sei que eles são ótimos escritores, redatores, roteiristas e afins. Os atores brilhantes e as atrizes muito belas, cenários idem e a tecnologia ajuda bastante. Mas, falta algo... e entre estas coisas que faltam, uma delas, é um pouquinho mais de literatura brasileira na TV.

Explico: No citado programa recomendei que se voltassem mais para a beleza da Literatura Brasileira, dos textos e da vida de seus autores, dos seus tempos... se não quiserem fazer telenovelas ou minisséries de época, podem adaptar, atualizá-las, copidescá-las...

Eis um bom exemplo de fofoca literária e fofoca em parte rege a vida; está no livro O Monge do Hotel Bela Vista, de Edmílson Caminha, ed. Thesaurus, Brasília e foi lançado em 2008. São cartas trocadas entre o autor e o falecido memorialista Antonio Carlos Villaça. Vejamos só um item, partindo do texto abaixo já é possível escrever uma bela telenovela, com base no real. Eis um trecho da missiva de Villaça, datada de 15/10/1980:

“Quanto a Gilberto Amado, é certo que matou o poeta Aníbal Teófilo, em junho de 1915 (não na década de 20). Ele tinha 28 anos feitos a 7 de maio. Era deputado federal por Sergipe. Publicara um livro, A Chave de Salomão, pela Francisco Alves, 1914. Aníbal era um pouco mais velho, uns quarenta e pouco. A razão? Tudo permanece obscuro. Diz-se que Aníbal era amante de dona Gaby Coelho Neto e Gilberto teria querido aproximar-se dela. Aníbal hostilizou-o.

“Gilberto então se descontrolou. Há outra versão de que Gilberto teria seus desejos em relação a Aníbal e este o repeliu. O fato é que Aníbal era bissexual. Consta que era amante de Bilac. Este, num ímpeto romântico, derramou um vidro de perfume sobre o cadáver. A verdade histórica é que Aníbal publicamente hostilizava Gilberto. Este reagiu. Mandou dizer-lhe pelo Jackson de Figueiredo que o mataria se ele insistisse em humilhá-lo em público. Gilberto era baixinho. Era um garoto. Aníbal era um atleta, era alto e realmente muito bonito. Gilberto sempre foi sexualmente muito universal, muito sensível à beleza masculina. Por que a hostilidade de Aníbal a Gilberto? Eis o enigma. Gilberto dá uma longa explicação em Memórias. Conclui que se tratava de uma agressão gratuita. Uma antipatia. Um despeito. Seria só despeito literário? Não creio. O capítulo do quarto volume é muito bem escrito, mas verdadeiramente não explica. É vago.

“Comigo, no fim da vida, Gilberto várias vezes se referiu em 1969 à figura de Aníbal, que, no seu dizer expresso, lhe fazia de companheiro, nas horas de solidão, no apartamento da rua General Glicério, Laranjeiras. Não lhe fiz perguntas, seria indelicado. A Aníbal era freqüente que se referisse, dizendo apenas – aquele homem... Gilberto era um ser muito enigmático. Alvejou também Lindolfo Collor e Elloi Pontes, na mesma época. Mas errou os tiros. Que era violento, não há dúvida”.

- páginas 21 e 22 do citado livro do professor, escritor e jornalista Edmílson Caminha.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

A Coisa

poesia de Antonio Carlos Rocha:

pior que uma coisa malfeita
é a autocensura
por não ter feito
uma coisa bem-feita

e o fato de ter feito
uma coisa malfeita
aprende-se depois
a fazê-la bem-feita

não existe coisa perfeita
nem coisa refeita
o que existe é a coisa
direita ou imperfeita.

(tentativa poética a partir da leitura do texto "A Coisa", de Heidegger. A poesia encontra-se na antologia "Universitários: verso & prosa, Letras-UFRJ", José Olympio Editora, 1980).

domingo, 28 de dezembro de 2008

Crítica da Escrita

“Recebi a Crítica da Escrita, do prof. Rogel Samuel. Li-o assim que me chegou às mãos, e achei interessantíssimo o estudo. Fiquei feliz em saber, depois, pelo próprio Rogel, que devo a você a indicação para o recebimento do trabalho. Obrigado pela lembrança amiga. O prof. Rogel parece um homem inteligente, agradável e educado. Pediu-me, por carta, que lhe mandasse endereços de escritores e intelectuais que gostariam de receber seu livro. Já o fiz, com o maior prazer. Espero corresponder-me regularmente com ele, contando, assim, com mais um bom amigo aí no Rio”.

- trecho de uma carta do professor, jornalista e escritor Edmílson Caminha ao jornalista e escritor Antonio Carlos Villaça, em 04/05/1981.

Edmilson, hoje radicado em Brasília, estava em Fortaleza, e de lá escreveu ao Villaça que residia no Rio.

A carta encontra-se no ótimo livro de Caminha, O Monge do Hotel Bela Vista, ed. Thesaurus, 2008, página 49. Uma edição comemorativa dos 80 anos, caso estivesse vivo, do grande ser humano que foi Antonio Carlos Villaça.

Budisticamente falando, Villaça continua vivo ! Não apenas no âmbito da Literatura Brasileira, mas no coração e na mente de todos aqueles que tiveram a felicidade de privar de sua generosa amizade.

A obra de Edmílson Caminha tem 61 cartas que ele e Villaça trocaram, de 1980 a 1991. Mais do que um volume de memórias, O Monge do Hotel Bela Vista é uma aula imperdível, um excelente passeio cultural pelos mais variados nomes de nossa Literatura.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Arte e política

“ Ignorar a política é como enterrar a cabeça na areia.

“Gostaria de citar algumas palavras do renomado comediante e cineasta britânico Charlie Chaplin (1889-1977): “Aqueles que ignoram a situação política estão enterrando a cabeça na areia. É preciso ser louco para fazer isso e ignorar a política quando ela é tudo o que importa”. Em outras palavras, não podemos ignorar a política enquanto fizermos parte da sociedade; de fato, devemos manter uma vigilância rigorosa sobre o governo e nossos líderes políticos. Importantes pensadores e ativistas de todo o mundo salientam esse ponto.

“ Para que a democracia prospere, as pessoas precisam se tornar sábias e informadas e monitorar cuidadosamente as ações dos que estão no governo. O sr. Toda (fundador, nos anos 30, do século XX, no Japão, da linhagem budista Sokka Gakkai) era sempre inflexível com relação a não tolerar os abusos que causavam sofrimento às pessoas e nos pediu que lutássemos com toda firmeza contra a natureza maligna da autoridade. Ele também advertiu rigorosamente aqueles que haviam sido eleitos graças ao apoio de seus concidadãos para que nunca se tornassem pretensiosos, arrogantes nem presunçosos. Os políticos que são verdadeiros representantes do povo devem caminhar com o povo e por ele lutar; devem viver e morrer entre o povo – esta era a firme convicção do sr. Toda” (Daisaku Ikeda).”

Fonte: semanário budista Brasil Seikyo, ano 44, nº 1958, 04/10/2008 – http://www.brasilseikyo.com.br/

sábado, 6 de dezembro de 2008

Literatura Espírita Brasileira

Acreditamos que já está na hora de começarmos a pensar no título acima: Literatura Espírita Brasileira, mas também pode ser “Literatura Brasileira com temática Espírita”. Deste modo, o livro, os autores (espírito e médium), os leitores estarão nos proporcionando excelente material para pesquisarmos o vigor da arte literária espírita, suas interpretações, releituras, re-escrituras e afins.

Vez por outra ficamos sabendo que em alguma faculdade, por este imenso Brasil, alguém está defendo uma monografia de graduação, um trabalho de pós-graduação, uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado com um tema ligado ao Espiritismo. Eis aí uma boa sugestão de pesquisa: começarmos a catalogar que teses são essas, que trabalhos são esses ? onde foram defendidas ? etc.

No campo da pesquisa acadêmica, é uma investigação longa. Quantos romances espíritas já foram publicados? Quantos contos espíritas já foram lançados ? Quantas peças teatrais já foram escritas, editadas e encenadas ? E temos os autores clássicos, Emmanuel, por exemplo, através da psicografia de Chico Xavier, nos romances Há dois mil anos e 50 anos depois. Temos também os autores novos. Os autores espíritos e os autores médiuns. E as poesias ? e os poetas ? Nessa proposta de estudo, levamos em conta não apenas o conteúdo doutrinário, mas também investimos na análise literária. Temos observado uma gama muito grande de possibilidades para estudarmos de forma criativa (partindo dos pressupostos da Ciência da Literatura) os romances espíritas, os contos, as crônicas, as peças teatrais, as letras de música, as poesias e assim estaremos semeando os textos espíritas no âmbito da Literatura Brasileira.

Podemos então ver em Chico Xavier e outros, não apenas o grande médium e psicógrafo que foi, mas também um grande escritor, um notável romancista, um ótimo contista, um criativo poeta, um brilhante cronista etc.

O assunto é também, um bom tema para a Literatura Comparada, por exemplo: as obras de um determinado autor quando encarnado e as obras desse mesmo autor, já desencarnado.

Verificamos então, que o alcance da Literatura Espírita Brasileira é bem amplo. Fica desde já a sugestão para que estudantes e professores, espíritas ou não, no campo das faculdades de Letras, comecem a pensar e refletir no que escrevemos acima.

A produção editorial espírita no Brasil atualmente é muito boa, grande e significativa. Sem dúvida, merece estudos e pesquisas. Quem concordar, mãos à obra !

(*) Professor de Literatura com mestrado e doutorado em Letras na UFRJ.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

José Saramago, bem antes do Prêmio Nobel

JOSÉ SARAMAGO, BEM ANTES DO PRÊMIO NOBEL

Antonio Carlos Rocha*

O sol estava frio, naquela manhã de inverno em Lisboa, fevereiro de 1980. Entro numa tasquinha (como os portugueses costumam chamar os seus botequins) e encontro com a escritora e crítica literária Maria Lucia Lepecki, brasileira, mineira, radicada em Portugal, desde a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. Ela também é professora titular de Literatura Portuguesa da Universidade Clássica de Lisboa.

- Ainda bem que vocês apareceram ! Que tal hoje à noite irmos à Casa do Alentejo, vai ter o lançamento do livro do Saramago.

Sentamos eu e minha mulher, nossa filha Vera ainda repousava no ventre de Heloisa, em pose fetal curtia os ares lusitanos.

Enquanto tomávamos o café da manhã, Maria Lúcia foi explicando:

- O José Saramago lança hoje o Levantados do chão. Um romance magnífico. Eu li quando estava ainda no original datilografado. É que eu sou muito amiga dele. No começo fiquei apreensiva, pois o livro começa brilhante, de forma inusual, inusitada para as tradicionais letras portuguesas. É uma virada histórica.

Ou como os portugueses costumam falar, uma “viragem”. Podem não ter sido estas as palavras de Lepecki, mas o sentido vale.

À noite, um simpático bondinho ou “elétrico” se preferirem, nos levou até a Casa do Alentejo, em uma ruazinha próxima ao Rossio, no coração da capital.

O ambiente cheio e festivo nos iniciava no lançamento. Na verdade, era um jantar, festa, com discurso e tudo o mais. Tinha até um Coral de Camponeses vindo diretamente do Alentejo, a região do latifúndio antes do 25 de abril e que nessa época, pós-revolução dos cravos, estava recheada de “comunas”, lotes, trechos de terra da Reforma Agrária que eles chamavam de UCPs – Unidades Coletivas de Produção.

No movimentado salão procuro a mesa onde Maria Lúcia nos espera, sentamos e, para surpresa, verifico que era uma mesa comprida e mais alguns lugares vazios. Logo depois chegam os “donos” dos lugares: o primeiro-ministro do 25 de Abril, Vasco Gonçalves e esposa, mais o General Costa Gomes e senhora, líderes do MFA – Movimento das Forças Armadas que derrubou a ditadura salazarista e depois caetanista de 48 anos e ocuparam o primeiro governo revolucionário de Portugal, em pleno século XX. Logo a seguir sentam conosco o poeta Armindo Rodrigues e a estrela da noite, o escritor José Saramago.

Nessa época, a Casa do Alentejo era uma espécie de centro cultural do Partido Comunista Português e significativos nomes da intelectualidade lusitana faziam parte.

No momento em que foi autografar o meu exemplar, Saramago abraçou-me e exclamou: “Ó pá, lá vocês tem uma grande, que muito me inspirou, o Guimarães Rosa”. Retribuindo o abraço, sorri e agradeci.

Na época de Salazar, o Alentejo era uma região muito perseguida, foi lá que o PCP organizou a resistência e os campônios sempre bem articulados, deram muito trabalho à PIDE, a extinta polícia política do ditador. O romance Levantados do chão fala desse tempo, dessa época, desses sonhos, ideais e utopias.

Enquanto a fila de autógrafos aumentava, o Coral dos Camponeses encantou e cantou, desde a Internacional até músicas folclóricas do Alentejo e populares da terra de Camões. Depois, representantes da juventude comunista falaram.

Em dado momento o silêncio se fez e a “doutora”, como era camaradamente chamada, a Maria Lúcia resumiu o que me havia contado pela manhã:

“No começo eu fiquei preocupada, pois era uma inovação literária muito grande, enquanto estava lendo os originais datilografados eu não sabia se Saramago ia ter pique para levar até o fim do romance aquele ímpeto, aquela garra, aquela novidade. E de fato foi”.

Tanto foi, que está aí até hoje, o primeiro Prêmio Nobel da Literatura em Língua Portuguesa.


(*) Antonio Carlos Rocha é doutor em Letras, na UFRJ.

sábado, 1 de novembro de 2008

Poesia

Abaixo o “terrorismo purista”
Pelas Liberdades Gramaticaes
Viva a Lingüística !

Antonio Carlos Rocha

Queridos gramáticos:
Como os senhores bem sabem
Não há jeito que dê jeito
Da gente falar direito.

É tanta regrinha
Impossível gravar
Ninguém mesmo usa
Na hora de falar.

Os senhores também sabem
Que o falar muito varia
De pessoa, de lugar
Da noite para o dia.

Por que essa fixidez?
Normas tão duras !
Não é uma beleza
O falar das ruas?

Seja lá o que for
Fenômeno ou evolução
É falar e ouvir
Criar a oração

Então, essa tal de
Louçania da linguagem
No fundo, no fundo
Me cheira a bobagem

Pois como disse Manuel Bandeira:
“A língua errada do povo.
A língua certa do povo”.

Não me levem a mal, mas
Não sejamos radicaes
Nem tantas, nem tão poucas
Convenções gramaticaes

Gramática e cachaça
É tudo uma coisa só
Queridos senhores
De nós, tenham dó.

Não adianta fardão
Sem ser, erudito,
É o povo quem decide
É só, tenho dito.