segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Literatura e Espiritismo

Tese de doutorado na Unicamp pesquisa livros de Chico Xavier:

O Caso Humberto de Campos: Autoria Literária e Mediunidade.

Alexandre Caroli Rocha defendeu, em 4 de junho de 2008, tese de doutorado no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, em Campinas (SP). Trata-se dos livros que Chico Xavier atribuiu a Humberto de Campos e a Irmão X, passando também pelo famoso processo que a família do escritor moveu contra o médium mineiro e a Federação Espírita Brasileira para requerer direitos autorais. Abaixo (trechos) da entrevista com o autor, que já defendeu tese de mestrado em Literatura sobre a obra Parnaso de Além-Túmulo, o primeiro livro de Chico Xavier:

Folha Espírita – O que você pesquisou na tese de doutorado?

Alexandre Caroli da Rocha – Estudei a obra de Humberto de Campos (1886-1934) e os livros que Chico Xavier (1910-2002) atribuiu a ele e a Irmão X. O objetivo foi pesquisar o problema autoral desse conjunto de livros do médium mineiro. Na tese, entre outros temas, apresentei um histórico dessa atribuição de autoria e analisei as estratégias textuais utilizadas pelo autor dos livros psicografados para se representar como Humberto de Campos após sua morte.

FE – Os especialistas chegaram a fazer uma comparação entre as obras de Humberto de Campos, escritas quando encarnado, com as que escreveu através de Chico Xavier?

Rocha – Alguns escritores e intelectuais, especialmente em 1944, publicaram artigos a respeito de suas impressões de leitura, relacionando as duas obras. Na tese, analiso boa parte desse material. Em síntese, há duas questões envolvidas: uma é textual e outra é teórica. Uma grande parte dos comentadores achou que os textos psicografados apresentavam muitas afinidades com o que Humberto de Campos costumava escrever (fator textual). A partir desse dado, alguns arriscavam uma explicação (fator teórico) e outros diziam não saber como explicar o fenômeno. Entre as tentativas de explicação havia a kardecista (o espírito do escritor comunicou-se através do médium); a do pastiche, consciente ou inconsciente (o médium imitou Humberto de Campos); a demonista (o verdadeiro autor é o diabo); a sobrenatural (houve um milagre e o milagre não pode ser explicado). Um bom exemplo é o que passou com Agrippino Grieco, em 1939. O crítico acompanhou uma sessão espírita na qual Chico Xavier psicografou uma carta a ele dirigida e assinada por Humberto de Campos. A respeito do texto, ele declarou que parecia mesmo ser um escrito inédito do autor de Memórias, mas não sabia como explicar o fenômeno.

FE – Como ter acesso à tese?

Rocha – Na internet, ela já está disponível na Biblioteca Digital da Unicamp, no endereço: http://libdigi.unicamp.br/document/?code=vtls000443434.

(texto acima conforme a Folha Espírita, novembro de 2008, www.folhaespirita.com.br ).

domingo, 22 de fevereiro de 2009

O Deus que gosta de Poesias

Antonio Carlos Rocha*

No próximo ano, 2010, será realizado pela primeira vez no Brasil, simultaneamente em Jandira, SP, e em Brasília, o Festival de Poesias da Oomoto, uma linhagem Xintoísta que está presente em diversos países e, naturalmente, em nosso país, inicialmente através dos imigrantes japoneses e hoje em dia através de muitos brasileiros, sem nenhuma ascendência visível com os nipônicos, a não ser as espirituais que, por enquanto, não temos como provar.

Diz a antiqüíssima lenda que, após abater a “gigantesca serpente diabólica”, o Deus Susanoo, filho do Deus Celestial, ficou triste porque percebeu que ainda, em todos os países, os seres humanos continuavam apegados às mais diversas formas do mal. Então a esposa do Deus Susanoo, chamada Kushinada-hime , fez um tambor e começou a tocar, cantar e dançar para alegrar o marido. Nesse momento, o Deus Susanoo compôs um poema (tanka) que dizia:

“Embora eu tenha destruído o chefe dos maus espíritos, entre todos os países do mundo, ainda existem grandes barreiras, sobre as quais esvoaçam grossas nuvens. Portanto, elimine também essas barreiras e essas nuvens, em favor da paz”.

Estudiosos afirmam que foi nessa ocasião que nasceu a tradicional poesia japonesa chamada tanka, composta de uma única estrofe com cinco versos: a primeira linha com 5 sílabas; a segunda linha com 7 sílabas e assim alternando até o quinto verso.

As informações acima estão na revista Oomoto Internacia, edição bilíngüe, esperanto e português. Os oomotanos estudam, falam, praticam e divulgam o idioma internacional esperanto. Maiores detalhes www.oomotodobrasil.org.br

É bem provável que o nome da cidade de Suzano, no interior paulista, venha desse Deus, visto que os imigrantes japoneses, desde 1908, se espalharam pelos mais diversos pontos do Estado de São Paulo. A explicação para se realizar o Festival em Jandira é porque lá fica a sede nacional da linhagem e em Brasília por ser a capital federal.

No dia do Festival, que será oportunamente divulgado, os praticantes escrevem poemas no estilo tanka (não confundir com haikai que é menor). As poesias são escritas em pequenos papéis e colocadas no altar. Diz a milenar tradição que o Deus Susanoo fica muito feliz, alegre e contente lendo as poesias dos fiéis. Podem ser pedidos, agradecimentos, louvores à paz mundial etc.

Obs.: Respeitamos a grafia oficial da linhagem e escrevemos Deus Susanoo com “d” maiúsculo.

(*) Antonio Carlos Rocha é professor e escritor.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Carta de Monteiro Lobato ("evangelizante") a Anísio Teixeira

“São Paulo, 3-6-1944.

Anísio,

Passou por aqui um engenheiro baiano, Nery, que muito me falou de você; e também um moço da livraria do Otales, que te levou me abraço. Mas esta não é para nada disso – nem para comentar a entrada americana em Roma, o grande fato do dia de hoje. É para te comunicar algo muito importante. Todos nós, Anísio, temos o vago sonho de encontrar um livro que nos seja uma casa definitiva – a casa de sonho que procuramos. Um livro no qual; moremos, ou passemos a morar como um rato dentro de um queijo. Um livro que seja casa e comida. E se como D. João saltava duma mulher para outra em busca da única, ou da certa, nós vivemos como gafanhotos, a pular de livro em livro, é que nunca aparece o nosso livro. Quando Sto. Agostinho dizia temer o homem de um só livro, ele se referia ao perigo que é o homem que encontra o seu livro (...).

Pois creio que encontrei o meu livro – o queijo para casa e comida do rato velho que sou. E chama-se A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi.

Quis mandar-te o livro em vez de apenas indicá-lo, mas não achei nenhum nas livrarias, estão tirando nova edição. Fica aí de alcatéia, para fisgar um quando saia. E leia-o como estou fazendo: sem pressa nenhuma, com a simpatia aberta como uma flor (...). Estou ainda pouco avançado na leitura tanto me deslumbro e paro pelo caminho, e tenho um medo imenso de que com você não se dê a mesma coisa. Mas há de dar-se. Impossível que você não veja o que esse livro é. E sabe que A Grande Síntese está cá em casa há quase dois anos, e só agora eu a descobri? Purezinha morou nela todo esse tempo, e foi essa persistência que me atraiu a atenção: Abria-a ao acaso, comecei a lê-la... e eis-me evangelizante ! Eis-me a escrever ao Anísio, para que a leia também. Por que ao Anísio e não a outro qualquer? Porque você é a Inteligência pura, Anísio, e tenho a certeza de que, a tua opinião sobre o livro podia coincidir com a minha – e que glória para mim por tê-la a indicado ?

Mas se acaso seguires meu conselho e leres A Grande Síntese, não quero que me escreva logo após a leitura – e sim um ano depois; isto é, depois que a leitura amadurecer como os vinhos...

Adeus. Dê-nos a tremenda notícia de que anda projetando uma daquelas famosas vindas a S. Paulo. Venha levantar o ânimo de S. Paulo que está “crest fallen” com a tua já tão longa ausência.

Mil abraços do
Lobato”

(trechos da carta do escritor Monteiro Lobato ao educador Anísio Teixeira. O original encontra-se no CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas, na Praia de Botafogo, Rio. Conforme www.pietroubaldieditora.com.br

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Diálogo com Chuang Tzu Hoje

Antonio Carlos Rocha*

“Hoje, século XXI, 2008, qual a importância das palavras de Chuang Tzu para nossas vidas? Propositalmente escrevo a palavra “palavra” e aproveito para citá-lo:

“A armadilha de peixes existe por causa dos peixes; uma vez apanhado o peixe, pode-se esquecer a armadilha. O laço para coelhos existe devido ao coelho; uma vez apanhado o coelho, pode-se esquecer o laço. As palavras existem pelo seu significado; uma vez captado o significado, podemos esquecer as palavras. Onde encontrarei um homem que tenha esquecido as palavras, para que possa trocar com ele uma palavra?”

Inicialmente queremos ponderar que talvez o mais indicado seja em vez da palavra “palavra”, colocarmos a palavra questão. Estamos repetindo a palavra “palavra” porque ela nos lembra lavra. O verbo lavrar nos remete a arar a terra, preparar o terreno para o plantio. E o que é que plantamos nesse terreno? O que é que, com as palavras, estamos fazendo com a nossa Terra, com o nosso planeta Terra? Será que um dos problemas que está acontecendo no mundo de hoje é com a palavra? Está na palavra? Está com o (e no) excesso de palavras? Como bem se diz, a questão é o emaranhado de palavras? Com essa teia? Com essa rede de palavras? Será que é porque falamos demais e nos entendemos de menos? Será que é isso o que Chuang Tzu está querendo nos dizer?

“Será que as palavras são armadilhas? Será que as palavras podem ser armadilhas? Do que é (e do que) são feitas as palavras? E hoje, podemos viver sem (as) palavras? Note-se que, cada vez mais, as empresas de telefonia estimulam o uso de seus aparelhos. Não estamos falando do aspecto saudável que é o uso de um telefone quando se precisa transmitir ou receber uma mensagem. Estamos falando que hoje somos reféns da indústria que alimenta e favorece as palavras. Concordando com Chuang Tzu, caímos na armadilha do consumismo”.


(*) O presente artigo é parte de um texto que o autor publicou na revista Tempo Brasileiro, nº 171, cujo tema é : “Permanência e Atualidade da Poética”. A edição foi organizada pelo professor Manuel Antonio de Castro, titular de Poética na Faculdade de Letras, da UFRJ.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Os veados de Nara"

Antonio Carlos Rocha*

No início dos anos 1980, a Faculdade de Letras da UFRJ criou o curso “Português-Japonês”. Tempos depois, um grupo de professores foi ao Japão através de intercâmbio acadêmico.

Certa amiga e professora, do curso Português-Literaturas, portanto, não falava japonês, contou o “mico” que pagou por não saber ler os ideogramas daquele país:

Ao visitar um parque público, notou que vendedores ambulantes ofereciam pacotes de biscoitos. Comprou um e guardou na bolsa. Ao final da tarde, já de volta no trem que a levava para o hotel, sentiu fome. Naturalmente abriu a bolsa, abriu o citado pacote e pôs-se a comer o biscoito.

Nesse momento, os japoneses que estavam sentados à frente dela no vagão, começaram a rir e explicaram que aquele biscoito era para dar aos veados que habitam o parque, como aqui, no Ocidente as pessoas compram milho para os pombos.

Ela argumentou que o pacote não tinha uma única frase em inglês, tudo em japonês daí a gafe. Mas todos riram inclusive ela.

A curiosidade acima me fez lembrar do escritor e médico Cláudio de Souza (1876-1954), membro da Academia Brasileira de Letras, em seu livro Impressões do Japão, publicado em 1940 pela Editora Civilização Brasileira.

O autor visitou o País do Sol Nascente em 1940, andou de norte a sul, era um apaixonado pela cultura nipônica. O veado é um animal especial no Budismo; em muitos quadros, paisagens e afins, vemos o Buda meditando na floresta tendo ao lado os pacíficos animais.

À página 157 Cláudio de Souza escreve:

“Não vos apresseis. Vamos permanecer por mais alguns momentos na lenidade do bosque. Aproxima-se um vendedor de cartuchos com biscoitos leves para os animais sagrados. Metei a mão no bolso; trazei para fora o porta- moedas. Por alguns cents o vendedor sorridente nos vende um cartucho. Os veados de Nara – estamos em Nara – viram nosso movimento e vem acudindo. Estendei-lhes a mão com o biscouto. Sentirei suas línguas húmidas e tépidas molhar-vos os dedos.

Naquele cenário e naquele ato bucólico perguntareis de novo:

- Estamos no ano da graça de 1940, ou ainda naquelas priscas eras em que homens e animais formavam uma só família nos bosques mitológicos?”.

(*) Antonio Carlos Rocha é escritor.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A Arte da Guerra

Antonio Carlos Rocha*

Apesar do título é um livro que fala de paz, que fala da vida, pois a vida, em certo sentido, podemos lê-la, como se fosse uma guerra. E neste livro compreendemos que os soldados são os nossos pensamentos. Uns contra, outros a favor, mas a soldadesca dos pensamentos está sempre aí, em nossa mente.

O autor, Sun Tzu, era um pensador, um filósofo, um civil, que viveu no século V AC, logo após a aparição de Buda neste mundo, que foi no século VI AC. O pensador inspirou-se na Lei da Impermanência que Sakyamuni tanto falava e escreveu os famosos treze capítulos de sua Arte da Guerra, a arte de vencer a si mesmo, pois o Buda ensinava que é mais fácil vencer um exército de mil guerreiros do que vencer a si mesmo.

O texto de Sun Tzu impressionou tanto o imperador chinês da época que o nomeou general de seu exército. Conta-se que, enquanto viveu, e só faleceu bem idoso, nenhum reino daquele tempo, conseguiu vencer as tropas de comandadas por Sun Tzu.

Uma ótima edição brasileira é a da Editora Record, 1983, adaptada pelo escritor e especialista em Extremo Oriente James Clavel. São 120 páginas com magníficas reflexões sobre a arte de viver.

Atualmente, muitos empresários utilizam A Arte da Guerra em cursos, simpósios e seminários de treinamento para executivos, para melhorar performances de produtos e dinamização de recursos humanos etc.

Vejamos alguns trechos:

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas...”.

“Lutar e vencer em todas as batalhas não é a glória suprema; a glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar”.

“A arte da guerra é governada por cinco fatores constantes que devem ser levados em conta. São: a Lei Moral, o Céu; a Terra; o Chefe; o Método e a disciplina”.

“A arte da guerra é de importância vital para o estado. É uma questão de vida ou morte, um caminho tanto para a segurança como para a ruína. Assim, em nenhuma circunstância deve ser negligenciada”.


(*) Antonio Carlos Rocha é escritor.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Vivências Literárias

Antonio Carlos Rocha*

Para quem quer se iniciar na arte de ler bem e escrever bem, sugiro um pequeno grande livro de bolso: Como Se Faz Literatura, de Affonso Romano de Sant’Anna. Apenas 58 páginas, publicadas pela Editora Vozes, em 1985.

O bom desta obra, é que o autor conta alguns detalhes da vida de consagrados autores nacionais e internacionais. Affonso Romano de Sant’Anna dispensa maiores apresentações, registre-se apenas que foi professor da UFMG e quando eu era aluno de graduação, no Rio, ele veio somar com o excelente time de professores que aportavam ali, na Faculdade de Letras da UFRJ, na antiga Avenida Chile.

Vejamos alguns trechos das páginas 39, 40 e 41:

“Jorge Amado publicou No País do Carnaval aos 19 anos e começou já aí a fazer sucesso. Pôde viver de literatura bem cedo. É evidente que ter pertencido ostensivamente ao partido comunista ajudou na divulgação de sua obra no exterior, o que, por outro lado, dificultou a sua circulação aqui dentro, pois vários de seus livros foram recolhidos e queimados pela polícia de Getúlio Vargas.

“Graciliano (também membro do antigo PCB) se tornou conhecido porque, como prefeito de Palmeira dos Índios, AL, fez um relatório que foi lido por Augusto Frederico Schmidt, que suspeitou ali um escritor. Mas Graciliano quando publicou Caetés, já tinha 41 anos. A primeira edição de Macunaíma, de Mário de Andrade, em 1928, foi de 800 exemplares e o primeiro livro de Drummond, Alguma Poesia (1930), quando ele tinha 28 anos, foi de 500 exemplares e numa edição particular”.

“(...) José Mauro de Vasconcelos (até hoje ainda mal interpretado pela crítica) há um fenômeno que mereceria mais atenção. No caso de José Mauro de Vasconcelos, há inclusive um dado complicador. Eu vi seus livros em diversas livrarias nos Estados Unidos, Alemanha, Argentina, França e Itália. Quer dizer: fazia sucesso em diversas línguas e culturas. Logo, deve ter ali algum tipo de mensagem que encontra eco num tipo específico de público, que é universal. No mínimo, isto significa que ele conseguiu sintonizar seus sentimentos escritos com uma faixa de sensibilidade determinada. Não me consta que tivesse atrás de si um agente literário tão eficiente como os best-sellers americanos”.

José Mauro de Vasconcelos não era badalado pelos intelectuais, pela mídia da época; morava em Bangu, subúrbio do Rio de Janeiro. Aliás, dos 4 aos 11 anos residi ali perto, primeiro no Barata, depois em Realengo, até que mudei para a cidade satélite do Gama, DF. Saudosos tempos...

(*) Antonio Carlos Rocha é escritor.