segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Crítica contemporânea

“O papel do crítico contemporâneo é, portanto, tradicional. A questão fundamental do presente ensaio é recordar à crítica sua função tradicional, e não inventar para ela alguma nova função que esteja na moda. Para uma nova geração de críticos da sociedade ocidental, “literatura inglesa” é hoje um rótulo herdado para designar um campo dentro do qual se congregam muitas preocupações distintas: semiótica, psicanálise, estudos cinematográficos, teoria cultural, representatividade sexual, textos populares e, sem dúvida, a convencional apresentação dos textos mais antigos. Essas atividades não mantêm entre si nenhuma relação óbvia, a não ser a preocupação com os processos simbólicos da vida social e com a produção social de formas de subjetividade. Em termos da história cultural, os críticos que vêem essa busca como modernosa e novidadeira estão equivocados. Elas representam uma versão contemporânea dos temas mais caros à crítica, antes que esta fosse levada à pobreza do chamado “cânone literário”. Além disso, podemos argumentar que essa indagação poderia contribuir, ainda que modestamente, para nossa sobrevivência. Afinal, fica cada vez mais claro que, sem uma compreensão mais profunda desses processos simbólicos, através dos quais o poder político é exercido, reforçado, rechaçado e, às vezes, subvertido, seremos incapazes de resolver as mais letais lutas pelo poder com as quais nos defrontamos atualmente. A crítica moderna nasceu de uma luta contra o Estado absolutista; a menos que seu futuro se defina agora como uma luta contra o Estado burguês, é possível que não lhe esteja reservado futuro algum“.

- A função da crítica, de Terry Eagleton, São Paulo, Martins Fontes, 1991, p. 115 e 116.

domingo, 2 de dezembro de 2007

A arte em questão:as questões da arte

Fruto de um conclave realizado na Faculdade de Letras da UFRJ, com o mesmo nome, em 2005, o livro que destacamos é uma co-edição da citada faculdade e Editora 7 Letras.
A organização do evento e do volume esteve a cargo do professor Manuel Antonio de Castro, titular da área de poética.
Os expositores das mesas temáticas são professores especialistas em cada filósofo ou pensador, assim temos Werner Aguiar, da UFRN, que falou sobre “Mito”; Luiz Rohden, da Unisinos, que abordou o pensador alemão Hans Geog Gadamer; Ivo Lucchesi, da FACHA, que falou sobre o alemão Walter Benjamin; e os demais da UFRJ que discorreram sobre Platão (Alberto Pucheu), Aristóteles (Emmanuel Carneiro Leão), Fichte (Ronaldes de Melo e Souza), Nietzsche (Antonio Jardim), Deleuze (Marcelo Jacques de Moraes) e o organizador Manuel Antonio de Castro que falou sobre Heidegger.
Logo na apresentação diz Manuel Antonio de Castro: “Até hoje não se descobriu nenhuma cultura que não mostre, em primeiro lugar, atividades artístico-sagradas. E são estas que nos permitem algumas aproximações dos diferentes modos de experienciação do real.”
E assim conclui o apresentador: “Procurar e questionar as questões da arte trata-se, para mim, de fazer da vida vivida uma vida experienciada como obra de arte. E o que procuro para mim quero para os outros, meus amigos-leitores-irmãos. Mas então só há um caminho único e inaugural para cada um: questionar e por em questão. Aí surgem, em seu mistério, as questões da arte”.

- resenha de Antonio Carlos Rocha.

domingo, 11 de novembro de 2007

Arte e Sociedade

“A literatura faz parte do produto geral do trabalho humano, isto é, da cultura. A cultura de um povo são suas realizações, em diversos sentidos, como as ciências e as artes. É um conjunto socialmente herdado, que de certo modo determina a vida dos indivíduos.

“Para compreender a literatura (e a arte em geral) do ponto de vista cultural, há de fazer-se certas distinções e algumas observações.

“Em primeiro lugar, é necessário distinguir objeto artístico de utensílio.

“A arte não se pode identificar com um utensílio. A arte é gratuita, isto é, sua finalidade é quase a própria arte. A arte não deve ter finalidade, porque ela é uma finalidade em si mesma. É pois uma atividade lúdica, isto é, não tem finalidade fora de si mesma. Isto não quer dizer que a arte não sirva para nada, mas outra coisa, foi a sociedade moderna que estabeleceu que o padrão da realidade de um determinado objeto é sua necessidade, isto é, os objetos são definidos não pelo que são, mas para o que servem. Tudo na vida social é visto com respeito a um determinado fim. Todos os produtos humanos e todas as ações humanas (o trabalho) estão assim definidos”.

(Rogel Samuel (org). Manual de teoria literária. Vozes, 1984, p. 7).

sábado, 10 de novembro de 2007

Os Poemas da Minha Vida

O médico e escritor português Luís Portela organizou para o jornal Público, de Lisboa, o volume 18 da coleção com o título acima. São 112 páginas reunindo poesias de autores portugueses de diversas épocas: João de Deus, Florbela Espanca, Teixeira de Pascoaes, Gomes Leal, Augusto Gil, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Ermelinda Duarte, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Sá Carneiro, António Gedeão, Camilo Castelo Branco, Maria de Souza, Bocage, Jorge de Sena, Miguel Torga, Pedro Ayres de Magalhães, Guerra Junqueiro, Agostinho da Silva, Sofia Lago, João Matos, Miguel Ângelo.

Na coletânea Luís Portela selecionou também outros autores estrangeiros: o chinês Lao Tse, o belga Gerard Dorn, o indiano Rudyard Kipling e o libanês Khalil Gibran.

“Admitindo que gostei de outros que agora não recordo, estes são os poemas que me fizeram vibrar ao lê-los, ou que me impressionaram, ou até me marcaram. Em diferentes momentos ao longo da vida, eles tiveram um significado especial para mim. E ainda tem. São de autores muito diversos. Desde alguns dos mais importantes nomes da literatura portuguesa, a alguns jovens pelo menos ainda quase desconhecidos. Desde pensadores que marcaram a História, até simples compositores de música ligeira contemporânea.

“Os temas abordados são também diversos. Desde a amizade à simplicidade. Da ciência à paz. De Deus e de liberdade. De crianças, de aves e de mar. De vida, de espiritualidade e de amor. Talvez se possa considerar como tema comum a Vida.”

A edição é de 2006.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A Crônica

“No início da era cristã, chamava-se crônica a uma relação de acontecimentos organizada cronologicamente, sem nenhuma participação interpretativa do cronista. Nessa forma, ela atinge o seu ponto alto na Idade Média, após o século XII, quando já apresentava uma perspectiva individual da história, como fez Fernão Lopes, no século XIV. As simples relações de fatos passam, então, a chamar-se “cronicões”. E, no século XVI, o termo “crônica” começa a ser substituído por história.

“A partir do século XIX, a crônica já apresenta um trabalho literário que a aproxima do conto e do poema, impondo-se, porém, como uma forma especial, porque não se permite classificar como aqueles.

“Ligada ao tempo (chrónos), ou melhor, ao seu tempo, a crônica o atravessa por ser um registro poético e muitas vezes irônico, através do que se capta o imaginário coletivo em suas manifestações cotidianas. Polimórfica, ela se utiliza afetivamente do diálogo, do monólogo, da alegoria, da confissão, da entrevista, do verso, da resenha, de personalidades reais, de personagens ficcionais... afastando-se sempre da mera reprodução de fatos. E enquanto literatura, ela capta poeticamente o instante, perenizando-o.

“Conscientemente fragmentária (e essa é a sua força) pois não pretende captar a totalidade dos fatos, a crônica vem-se impondo nos quadros da literatura brasileira...”

(Angélica Soares in Gêneros literários, 6ª edição, Ática, 2000, págs. 64 e 65. A autora é doutora em Letras e professora de Teoria Literária na UFRJ).

domingo, 21 de outubro de 2007

A História Literária

O problema do inter-relacionamento de história e literatura vem cada vez mais ocupando tanto os críticos literários como os próprios historiadores. Para o crítico, o problema se torna importante, mesmo fundamental, por duas razões principais. Primeira, em virtude da necessidade de compreender como um todo e historicamente as produções literárias de diferentes autores, épocas e nações. Segunda, ampliar os critérios de compreensão do que seja a obra literária, do que deva ser considerado como literário quando as modas e as pressões ideológicas não se fazem mais presentes. Sucede então que muitas obras, que em seu tempo conheceram o sucesso, passam com a moda. E outras, rejeitadas em seu tempo, são resgatadas literariamente. Importa, pois, ao verdadeiro exercício crítico, não só fundamentar o fenômeno literário mas igualmente histórico.

Na medida em que o literário se institui como um fazer histórico, o crítico e o historiador literário não lhe podem ser indiferentes. Toda história literária, implícita ou explicitamente expõe um conceito de história.

(...)

Pensar a história literária é pensar o histórico, o literário, a crítica em seu fundamento. A amplitude e radicalidade do conceito de crítica é que dará, em última instância, os parâmetros para a realização da história literária. Não podemos, é evidente, confundir crítica literária exercida historiograficamente com história literária. Algumas perspectivas críticas negam ou abandonam inteiramente o histórico, embora sejam posições críticas históricas, apesar de.

(Manoel Antônio de Castro, O acontecer poético. Editora Antares, 1982, págs. 117 e 118).

sábado, 20 de outubro de 2007

Homem e mundo

A arte é um dos meios de que se vale o homem para conhecer a realidade.

Esta última se efetiva na constante relação entre homem e mundo, vale dizer, entre sujeito e objeto, como costumam lembrar os filósofos.

Nesse jogo dialético, o homem busca aceder à interioridade de sua essência, para melhor saber de si e situar-se. E, no seu percurso existencial, tem procurado conhecer a si mesmo, o mundo, a sua relação com os outros, a sua relação com o mundo.

Todo conhecimento se caracteriza como uma representação, como um tornar de novo presente a realidade em que vivemos, para que dela tenhamos uma visão mais clara e profunda, que escapa a nossa percepção imediata. Toda representação, nesse sentido, configura uma interpretação. "O homem é a presença de todas as determinações de uma interpretação. Rejeitá-las seria negar a própria existência. Portanto, o homem é um arranjo existencial definido, articulado, situado. É uma circunstância, dizia Ortega y Gasset" e lembra Archangelo Buzzi, na sua Introdução ao pensar.

Esse interpretar se clarifica através de uma linguage."

(A linguagem literária, Domício Proença Filho, Ática, 2001, págs. 14 e 15).